Faculdade de Letras da Universidade do Porto - OCS, VII Congresso ISKO Espanha e Portugal / XVII Congresso ISKO Espanha

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Injustiça epistêmica, epistemicídio e organização e representação do conhecimento: os perigos de um lobo em pele de cordeiro
Thiago Ferreira Oliveira, José Augusto Chaves Guimarães, José Augusto Bagatini

Última alteração: 2025-06-17

Resumo


A epistemologia social, campo que explora como o conhecimento é construído, compartilhado e validado em contextos coletivos, considera as influências das dinâmicas sociais, políticas e culturais e esse conhecimento vai além de um empreendimento individual para depender de fontes externas, como os testemunhos e as autoridades epistêmicas, e as condições sociais que moldam essas fontes (Goldman, 1999). Assim, as desigualdades sociais e as relações de poder podem distorcer o processo de disseminação do conhecimento, criando barreiras que afetam quem tem acesso e quem é reconhecido como um possuidor do saber.

Se “conhecimento é poder” (Bacon,1597), é imprescindível assegurar que não seja monopolizado, mas, sim, democratizado, permitindo que os diversos sujeitos da sociedade possam contribuir para a construção dos saberes. Amparando-se na epistemologia social, González de Gómez (2022, p.185) destaca uma determinada tendência, de caráter construtivo, que “coloca o assento na responsabilidade epistêmica e hermenêutica de indivíduos, coletivos e instituições, visando a fortalecer ou reinventar os sistemas de arbitragem e as molduras normativas (epistêmicas, éticas, jurídicas)”.

Ao estabelecer mediação entre um conhecimento produzido e o acesso e uso desse conhecimento para a construção de um novo conhecimento, a Organização e Representação do Conhecimento – ORC atua entre culturas e suas epistemes, o que demanda clareza dos limites de seu “poder de nomear”, por meio de uma ética transcultural de mediação a partir de um exercício hermenêutico que contribua para uma representação mais justa de vozes frequentemente marginalizadas (Olson, 2002; García Gutiérrez, 2002; Oliveira; AUTOR, 2023).

Se até há algumas décadas, a área de ORC pautava suas reflexões no discurso da universalidade, que “(...) traz uma falsa impressão de cooperação mútua de conhecimento e aculturações de diálogos em equidade” dando margem a dominações culturais muitas vezes hostis, e à consequente à legitimação de um pensamento de moldes hegemônicos (Gonçalves; Mucheroni, 2021, p.6/12), mais recentemente, a crença no universalismo foi deixada de lado e vem dando lugar ao conceito de glocal (global + local) knowledge organization, em que se busca propiciar um diálogo global, mas sem desconsiderar peculiaridades e idiossincrasias locais que permeiam diferentes culturas (Andersen; Skouvig, 2017).

À vista disso, este trabalho tem por objetivo delimitar conceitualmente e situar os fenômenos da injustiça epistêmica - e, no limite, do epistemicídio - como riscos que se colocam ao desenvolvimento dos processos, ao uso dos instrumentos e à geração dos produtos de ORC. Para tanto, no âmbito metodológico, procede-se a um cotejo entre as obras seminais Epistemic Injustice: Power and Ethics of Knowing, de Miranda Fricker (2007) e a questão de epistemicídio em Boaventura de Sousa Santos (2018), no intuito de identificar seus traços descritivos para, em seguida, analisar seus impactos na ORC, com ênfase nos danos sofridos pelas comunidades usuárias.

Essa abordagem dialoga diretamente com a preocupação com a disseminação de preconceitos e antipatias (Berman, 1971), com a representação tendenciosa que exclui uma parcela da comunidade usuária (Olson, 2002), com o fenômeno do epistemicídio no âmbito da ORC (Mustafa El Hadi; Elbeely; Abdelwahab, 2023), com os vieses negativos na representação do conhecimento (Hjorland, 2008; AUTOR; AUTOR; Olson, 2014), ou com a questão do poder no âmbito dos arquivos (Schwartz; Cook, 2002). Externamente à CI, esse fenômeno encontra respaldo, por exemplo, no filme estadunidense Storm Center, de 1956 e no filme brasileiro Ainda estou aqui, de 2024, bem como no livro The dismissal of Miss Ruth Brown (Robinson, 2000).

Os resultados dessa reflexão teórica se evidenciam em exemplos desses impactos nos processos biblioteconômicos e arquivísticos de ORC, como a indexação e a descrição; nos instrumentos de representação, como as listas de cabeçalhos de assunto, os tesauros e as normas de descrição; e nos produtos, como os índices e os inventários, ente outros. Nesse contexto, algumas culturas correm maiores riscos de terem suas epistemes injustiçadas ou apagadas por processos, produtos e instrumentos de ORC, como as comunidades ligadas a questões de gênero (por ex: LGBTQIA+); as comunidades urbanas periféricas e economicamente menos favorecidas, as comunidades dos povos originários (por ex.: indígenas), as comunidades com historicidade relacionada a processos de escravização (por ex.: do povo africano). Tais comunidades têm sua cultura e historicidade permeadas pela construção de uma episteme que se reflete, entre outros aspectos, na linguagem e são merecedoras de representatividade equitativa face às culturas consideradas hegemônicas ou dominantes, em sistemas de ORC (na versão final serão apresentados e discutidos exemplos dessas situações).

Pelo percurso trilhado e resultados obtidos, conclui-se que a injustiça epistêmica e o epistemicídio são riscos que se colocam aos profissionais de ORC, em especial por serem estes detentores de um poder que lhes foi concedido pela sociedade e em cujos resultados se espera encontrar confiabilidade e precisão. Desse modo, as ações que envolvem a minimização – ou a exclusão - de epistemes de culturas não hegemônicas constitui elemento que fere a ética da ORC e necessitam ser claramente identificadas e combatidas.