Faculdade de Letras da Universidade do Porto - OCS, VII Congresso ISKO Espanha e Portugal / XVII Congresso ISKO Espanha

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A organização e representação do conhecimento e seu compromisso ético com o conceito de cidadania informacional no contexto dos ODS da Agenda 2030.
José Antonio da Silva, José Augusto Chaves Guimarães, João Carlos Gardini Santos, Rodrigo Rachid de Souza

Última alteração: 2025-06-17

Resumo


A questão da cidadania tem sido tradicionalmente objeto de abordagem na Ciência da Informação, notadamente ao longo das últimas décadas, buscando-se deslocar de uma concepção predominantemente técnico-normativa (centrada em processos e instrumentos de tratamento da informação) para voltar-se mais para a figura do usuário e das comunidades em que se inserem: suas necessidades, usos e formas de acesso à informação. Isso teve reflexo no campo da Organização e Representação do Conhecimento - ORC, especialmente na denominada abordagem sociocultural, fortemente influenciada pelas concepções de Birger Hjorland, (2002a, 2002b, 2003, 2004, 2008, 2017), com ênfase nos contextos em que os processos, instrumentos e produtos de ORC são concebidos e aplicados, englobando aspectos como formação e atuação profissional, ética, cultura e identidade e as relações com o desenvolvimento sustentável (Beghtol, 2002; García Gutiérrez, 2002; Olson, 2002; Milani, 2007; Guimarães; Dodebei, 2012; Smiraglia, 2012; Lima; Almeida, 2019).

À visto disso, objetiva-se discutir como, em uma abordagem sociocultural, a ORC assume compromissos de natureza ética com a promoção de uma cidadania informacional, mais especialmente no âmbito do desenvolvimento sustentável preconizado pelos ODS da Organização das Nações Unidas - ONU.

Para a consecução desse objetivo, desenvolve-se, sob o aspecto metodológico, uma reflexão teórica pautada na literatura internacional da área, a partir do seguinte fio condutor: a delimitação histórico-conceitual da cidadania – em especial a partir da concepção de Hannah Arendt relativa aos “direito a ter direitos” (Arendt, 2012)[1], a abordagem da cidadania informacional como uma faceta da vertente social da cidadania, e a inserção dessa cidadania informacional nos ODS da ONU (2024), para subsidiar a identificação de compromisso éticos da ORC envolvidos.

A “Cidadania Informacional” traduz-se na plena condição do indivíduo, pertencente ou não a uma comunidade formal, em usufruir de seus direitos – civis, políticos e sociais – bem como de seus deveres e responsabilidades, por meio de uma informação livre, íntegra, transparente, acessível e sustentável, que promova e garanta direitos humanos básicos, a todos – isto é, não seletivos – por parte de quem os oferta (Estado, sociedade civil organizada, governos) com foco em políticas públicas destinadas a quem os recebe (indivíduos, cidadãos e outros agentes que possam estar em situação de vulnerabilidade).

Os resultados evidenciam que  a hospitalidade e a garantia cultural dos produtos de ORC (Beghtol, 2002), a adoção de um a ética transcultural de mediação (García Gutierrez, 2002) e de uma consciência dos limites do “poder de nomear” (Olson, 2002) nos processos de ORC bem como a promoção de produtos que possam promover um diálogo global sem desconsiderar as especificidades locais (Andersen; Skouvig, 2017) constituem compromissos éticos significativos para que esse campo promova uma ampla cidadania em termos de acesso, uso e apropriação da informação em que as diferentes configurações culturais (étnicas, raciais, religiosas, de gênero, etc.) possam se sentir refletidas e não discriminadas.

Tais elementos levam a concluir que o profissional da informação (desde sua formação até sua atuação profissional), deve ter clareza do papel mediador da ORC para o estabelecimento de um processo comunicacional entre as instâncias de produção e as de acesso, uso e apropriação do conhecimento para que se possa produzir um novo conhecimento, em uma dinâmica helicoidal contínua.

Nunca é demais recordar que, quando se organiza e representa um conhecimento, “a salubridade de nossas ações pode ser medida na proporção de bem ou mal que elas causam” (Adler; Tennis, 2014, p. 266). Em outras palavras, os processos, instrumentos e produtos de ORC devem estar comprometidos com a promoção da cidadania informacional (aspecto que pode ser considerado como um supravalor desse campo de conhecimento) sem o que pode estar conivente com a exclusão e, assim, levar a danos.

No caso dos conteúdos dos ODS, entendidos como informações fundamentais para a continuidade da vida no planeta, o comprometimento ético do profissional com a promoção da cidadania informacional se faz ainda mais premente, devendo ter especial atenção a perigos e ameaças que podem se apresentar ao acesso – e, por decorrência, ao exercício da cidadania informacional – quando os processos, instrumentos e produtos de ORC são permeados por preconceitos, proselitismo, tendenciosidades na subordinação e na equivalência de conceitos, caracterização dicotômicas e redutoras, crença na universalidade e na neutralidade dos instrumentos de representação, omissões intencionais, reducionismos,  generalizações, imprecisões,  adulterações e deturpações, censura e vigilância, entre outros.

Para tanto, a ORC, em seus processos, instrumentos e produtos deve, para a consecução de seu compromisso com a cidadania informacional, pautar-se pela manutenção – e defesa – da Disponibilidade, da Integridade, da Confiabilidade, da Autenticidade e da Procedência da informação valendo-se, por meio de elementos como a clareza multinível, na representação, a especificidade / profundidade na representação, e a Inter-relação de conceitos de modo a promover um acesso tanto global quanto local. (Tais aspectos são explorados detalhadamente no trabalho completo).

Referências

Adler, Melissa; Tennis, Joseph T. (2014).  Toward a taxonomy of harm in knowledge organization systems. Knowledge Organization, v. 40, n. 4, p. 266-272.

Andersen, Jack; Skouvig, Laura (2017).  The organization of knowledge: caught between global structures and local meaning.  Bingley : Emerald.

Arendt, Hannah (2012).  Origens do Totalitarismo (The Origins of Totalitarianism; Elemente und Ursprünge totaler Herrschaft). Trad. Roberto Raposo. São Paulo: Cia. das Letras.

Beghtol, Clare (2002). A proposed ethical warrant for global knowledge representation and organization systems. Journal of Documentation, v. 58, n. 5, p. 507-532.

García Gutiérrez, Antonio Luis. (2002).  Knowledge organization from a “culture of the border”: towards a transcultural ethics of mediation. In: López-Huertas, M.J. (eds). Challenges in knowledge representacion and organization for the 21st century: integration of knowledge across boundaries. Würzburg: Ergon, p.516-522.

Guimarães, José Augusto Chaves; Dodebei, Vera (2012).  Introdução. In: Guimarães, José Augusto Chaves; Dodebei, Vera (org.).  Desafios e perspectivas para organização e representação do conhecimento na atualidade. Marília : ISKO-Brasil; Fundepe, 2012, p.12-20.

Hjørland, Birger (2002a). Domain analysis in information science: eleven approaches-traditional as well as innovative. Journal of Documentation, v.58, n.4, p.422-462.

Hjørland, Birger (2002b). Epistemology and the socio-cognitive perspective in Information Science. Journal of the American Society for Information Science and Technology, v. 53, n. 4, p. 257-270.

Hjørland, Birger (2003). Fundamentals of knowledge organization. Knowledge Organization, v. 30, n. 2, p. 87-111, 2003.

Hjørland, Birger. (2004). Domain analysis: a socio-cognitive orientation for Information Science research. Bulletin of the American Society for Information Science and Technology, v.30, n.3.

Hjørland, Birger. (2008). What is Knowledge Organization (KO)? Knowledge Organization, v. 35, n.2/3, p.86-101.

Hjørland, Birger (2017). Domain Analysis. In: ISKO Encyclopedia of Knowledge Organization. http://www.isko.org/cyclo/domain_analysis.

Lima, Graziela dos Santos; Almeida, Carlos Cândido de. (2019). Abordagens socioculturais na organização do conhecimento: subsídios teóricos para representação da cultura afro-brasileira. In: Encontro Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciência da Informação, 20. Anais [...] XX Encontro Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Ciência da Informação, 2019.

Milani, Suellen Oliveira (2007).  Los valores éticos en organización y representación del conocimiento (ORC). In: Rodríguez Bravo, B.; Alvite Díez, M.L. (org.). La interdisciplinariedad y transdisciplinariedad en la organización del conocimiento científico. León: Universidad de León.

Olson, Hope. A. (2002). The power to name: locating the limits of subject representation in libraries. Dordrecht: Kluwer Academic Publisher.

ONU (2014). Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Disponível em https://brasil.un.org/pt-br/sdgs. Acesso em fev.2024.

Smiraglia, Richard. P. (2014).  Epistemology of domain analysis. In: Smiraglia, R.P.; Lee, H.-L. Cultural frames of knowledge. Wurzburg : Ergon. p.111-24.


[1] Originalmente publicado em 1951 como “The origins of totalitarianism.