Última alteração: 2025-06-17
Resumo
Título: Organização do Conhecimento e ética: reflexões na obra de José Saramago
Palavras-chave: Organização do Conhecimento. Ética. José Saramago.
Objetivos
A investigação teve como mote a epígrafe do romance O homem duplicado de José Saramago: “O caos é uma ordem por decifrar” (SARAMAGO, 2002, p. 103). Saramago intui que sempre há uma ordem/organização em tudo. A questão que a norteia é: É percebível a Organização do Conhecimento em romances de Saramago? O objetivo da pesquisa é investigar a obra de José Saramago de forma a avaliar a presença de Organização do Conhecimento. Por outro lado, as obras literárias de José Saramago estão impregnadas de uma ética de responsabilidade e de respeito a ser praticada pelos seres humanos.
Método
Trata-se de pesquisa qualitativa e exploratória e o lócus de pesquisa foram livros, de forma a identificar a presença de Organização do Conhecimento e conteúdo ético, na literatura de Saramago.
Resultados
Além da frase de Saramago: “O caos é uma ordem por decifrar” (SARAMAGO, 2002, p. 103), a investigação se embasou na discussão de Japiassu sobre a transdisciplinaridade. Japiassu discorre sobre os dois principais desafios que é necessário enfrentar de forma a integrar a desordem, o incerto, o inesperado e o acaso no conhecimento do real, de forma a religar os saberes dispersos sem fundi-los numa “hipotética síntese global” (JAPIASSU, 2006, p. 16):
O desafio da globalidade, lançado pela inadequação agravada entre, de um lado, um saber fragmentado e compartimentado das diferentes disciplinas do saber e, do outro, as realidades multidimensionais, globais e transnacionais com as quais nos defrontamos.
O desafio do crescimento ininterrupto e galopante dos saberes tornando cada vez mais difícil a organização de nossos conhecimentos em torno dos problemas fundamentais da existência. (JAPIASSU, 2006, p. 16-17).
Assim, intui-se que a ordem/organização do conhecimento pode e deve também estar presente na literatura. O desafio é identificá-la. Japiassu ainda ressalta que:
A especialização stricto sensu nasce apenas no século XIX da aceleração galopante dos conhecimentos e da sofisticação crescente das novas tecnologias. [...] As disciplinas se tornam fechadas e estanques [...] algumas disciplinas chegam a ser organizadas tendo em vista a defesa dos interesses de um ou outro grupo de especialistas empenhado em perenizá-las o máximo possível. [...] se tivemos que nos especializar para aprender, devemos nos abrir para compreender! Precisamos utilizar o máximo de nossa engenhosidade (Ingenium) para religar, fazer convergir, contextualizar, representar os vínculos e as interações do que percebemos ou conhecemos. (JAPIASSU, 2006, p. 21-25).
Nesse sentido, é possível verificar que a Organização do Conhecimento está presente no cotidiano de cada ser humano e, consequentemente, no ato de escrever. Saramago alertava que: “São essas as três perguntas básicas e, efectivamente, uma pessoa pode aceitar um conjunto de regras e acatá-las disciplinadamente, mas tem de manter a liberdade de perguntar: Por quê? Para quê? Para quem?” (SARAMAGO, 2003 apud AGUILERA, 2010, p. 387).
Neste contexto, foram identificados alguns textos de Saramago em que a Organização do Conhecimento está presente.
Em O conto da ilha desconhecida, em que um homem vai bater à porta do rei para pedir-lhe um barco para procurar a ilha desconhecida, não havia uma única porta, mas várias organizadas de acordo com as necessidades dos súditos. Também, o processo de atendimento era realizado obedecendo à hierarquia dos funcionários do palácio.
No romance Todos os nomes, no qual é descrita a história de um funcionário público da Conservatória dos Registros Centrais que resolve pesquisar sobre um nome e, obstinadamente, busca informações sobre essa pessoa, Saramago relata a organização da Conservatória, explorando a disposição dos documentos de que é depositária, assim como a hierarquia do funcionamento dela.
Em O evangelho segundo Jesus Cristo, no qual a ordem do conhecimento sobre o Jesus histórico perpassa todo o romance, vale ressaltar a conversa de Deus e Jesus quando, por ordem alfabética, Deus enumera os martírios daqueles que morrerão por sua causa. E, no romance Memorial do Convento em que os trabalhadores na construção do convento são citados por ordem alfabética – “[...] uma letra de cada um para ficarem todos representados” (SARAMAGO, 2011, p. 231). Percebe-se, um cuidado especial quanto à ordem de enumeração, alfabética, de forma a evitar demonstração de preferências e a impedir alguma omissão. Não será isso ética?
Conclusões
Voltando ao objetivo da pesquisa, conclui-se que a referida obra está repleta de textos que fazem uso de Organização do Conhecimento, assim como de evidências de ética na Organização do Conhecimento.
A investigação deve continuar de forma a identificar outros textos de Saramago em que é possível perceber a Organização do Conhecimento.
Referências Bibliográficas
AGUILERA, F. G. José Saramago nas suas palavras. Alfragide: Caminho, 2010.
JAPIASSU, Hilton. O sonho transdisciplinar: e as razões da filosofia. Rio de Janeiro: Imago, 2006.
SARAMAGO, José. O Evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.
SARAMAGO, José. Todos os nomes. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
SARAMAGO, José. O conto da ilha desconhecida. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
SARAMAGO, José. Memorial do convento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.