Última alteração: 2025-06-17
Resumo
Resumo: Este artigo analisa a produção científica internacional sobre patrimônio cultural imaterial, com ênfase na presença da temática “Festa Junina” e na contribuição da Ciência da Informação para o campo. A pesquisa tem caráter exploratório e qualitativo, fundamentada em análise bibliométrica e de conteúdo. Foram utilizados dados da base Web of Science – Core Collection, a partir da expressão “immaterial AND cultural AND heritage”, totalizando 440 registros. As informações foram processadas com auxílio do software VOSviewer, que permitiu a visualização de redes de co-ocorrência de palavras-chave, coautoria entre países e distribuição por áreas do conhecimento. Os resultados evidenciam a centralidade de termos como “cultural heritage” e “intangible cultural heritage”, além da predominância de abordagens oriundas das humanidades e das artes. A participação da área de Ciência da Informação, embora ainda limitada em volume, mostrou-se qualitativamente relevante, com destaque para estudos sobre representação documental, museologia digital e políticas de salvaguarda. A análise também identificou a ausência da “Festa Junina” como objeto específico de estudo, o que revela uma lacuna temática relacionada à visibilidade das manifestações culturais populares na literatura científica internacional. Conclui-se que há necessidade de maior articulação entre patrimônio cultural imaterial, memória social e organização do conhecimento, sobretudo no reconhecimento da Festa Junina como expressão identitária fundamental da cultura brasileira, com a finalidade de afirmar o festejo no campo científico.
Palavras-chave: Patrimônio cultural imaterial. Festa junina. Ciência da Informação. Representação cultural. Bibliometria.
REPRESENTATIONS OF INTANGIBLE HERITAGE THE JUNE FESTIVAL IN SCIENTIFIC PRODUCTION INDEXED IN THE WEB OF SCIENCE: SILENCES, ABSENCES, SAID AND UNSAID
Abstract: This article analyzes international scientific production on intangible cultural heritage, with an emphasis on the presence of the theme “June Festival” and the contribution of Information Science to the field. The research is exploratory and qualitative in nature, based on bibliometric and content analysis. Data from the Web of Science – Core Collection database were used, based on the expression “immaterial AND cultural AND heritage”, totaling 440 records. The information was processed with the help of the VOSviewer software, which allowed the visualization of networks of co-occurrence of keywords, co-authorship between countries and distribution by areas of knowledge. The results highlight the centrality of terms such as “cultural heritage” and “intangible cultural heritage”, in addition to the predominance of approaches originating from the humanities and the arts. The participation of the Information Science area, although still limited in volume, proved to be qualitatively relevant, with emphasis on studies on documentary representation, digital museology and safeguarding policies. The analysis also identified the absence of the “Festa Junina” as a specific object of study, which reveals a thematic gap related to the visibility of popular cultural manifestations in international scientific literature. It is concluded that there is a need for greater articulation between intangible cultural heritage, social memory and information organization, especially in the recognition of the Festa Junina as a fundamental identity expression of Brazilian culture.
Keywords: Intangible cultural heritage. Festa Junina. Information Science. Cultural representation. Bibliometrics.
REPRESENTACIONES DEL PATRIMONIO INMATERIAL DEL FESTIVAL DE JUNIO EN LA PRODUCCIÓN CIENTÍFICA INDEXADA EN LA WEB OF SCIENCE: SILENCIO, AUSENCIAS, DICHOS Y NO DICHOS
Resumen: Este artículo analiza la producción científica internacional sobre patrimonio cultural inmaterial, haciendo hincapié en la presencia del tema «Festa Junina» y en la contribución de las Ciencias de la Información a este campo. La investigación es exploratoria y cualitativa, basada en análisis bibliométricos y de contenido. Se utilizaron datos de la base Web of Science - Core Collection, con la expresión «immaterial AND cultural AND heritage», totalizando 440 registros. La información fue procesada utilizando el software VOSviewer, que permitió la visualización de redes de co-ocurrencia de palabras clave, co-autoría entre países y distribución por áreas de conocimiento. Los resultados muestran la centralidad de términos como «patrimonio cultural» y «patrimonio cultural inmaterial», así como el predominio de enfoques provenientes de las humanidades y las artes. La participación del área de Ciencias de la Información, aunque todavía limitada en volumen, resultó cualitativamente relevante, destacando los estudios sobre representación documental, museología digital y políticas de salvaguardia. El análisis también identificó la ausencia de la «Festa Junina» como objeto específico de estudio, lo que revela una laguna temática relacionada con la visibilidad de las manifestaciones culturales populares en la literatura científica internacional. Se concluye que es necesaria una mayor articulación entre el patrimonio cultural inmaterial, la memoria social y la organización del conocimiento, especialmente en el reconocimiento de la Festa Junina como expresión identitaria fundamental de la cultura brasileña, con el objetivo de afirmar la fiesta en el ámbito científico.
Palabras clave: Patrimonio cultural inmaterial. Celebración de junio. Ciencia de la Información. Representación cultural. Bibliometría.
INTRODUÇÃO
A patrimonialização da festa junina foi oficializada pela Lei n.º 14.555/2023, que reconhece a festividade como manifestação da cultura nacional. Tal reconhecimento, além de afirmar seu valor cultural, implica em reflexões sobre o que se escolhe preservar, representar, lembrar e esquecer no processo de institucionalização das memórias coletivas. Ou seja, escolher sempre é uma atividade de exclusão de vários conceitos, termos, palavras, possibilidades, de deixar a margem, no silêncio, no apagamento, na periferia subalternizada da escrita, da lei, do que é dito e do que é não-dito. Escolher é classificar, e, tradicionalmente, a escolha pode ser definida como reunir por semelhanças e separar pelas diferenças, mas as diferenças são elementos individualizantes com potência de criação, no jogo da diferença e repetição. E, talvez esteja aí o novo olhar, a nova perspectiva de uma escolha classificatória a diferença e sua modulação criadora de semânticas possíveis; redes semânticas de resistências. Como destacam Achilles, Sabbag e Rocha (2024), a festa junina é simultaneamente espaço de memória, resistência e construção de identidades, mas também está sujeita a mecanismos de silenciamento produzidos pelas esferas do poder.
Nesse cenário, emergem questões relevantes sobre como essa manifestação cultural é representada e classificada nos Sistemas de Organização do Conhecimento (SOCs), especialmente em instrumentos normativos como a Classificação Decimal de Dewey (CDD). A pesquisa apresentada na ISKO Ibérico 2023 (SABBAG, ACHILLES e ROCHA, 2023) revelou que a festa junina é frequentemente classificada de forma fragmentária ou imprecisa, o que pode levar a apagamentos simbólicos e reduções semânticas que impactam a visibilidade da cultura popular no campo da Ciência da Informação.
Partindo dessa problematização, o presente estudo busca analisar a produção científica sobre patrimônio cultural imaterial indexada na base Web of Science, com o objetivo de identificar tendências temáticas, abordagens disciplinares e a presença (ou ausência) da festa junina como objeto de estudo. Pretende-se, ainda, examinar como a área da Ciência da Informação tem se posicionado diante do tema, investigando os atravessamentos entre memória, representação, identidade e poder, à luz das práticas classificatórias e informacionais. Essa expansão da obturação da câmera da produção científica não só expande uma compreensão que está como expressado como fragmentário, mas também possibilita os alinhavos, as costuras, um patchwork reflexivo e epistemológico acerca de um objetivo que transpassa o imaginário simbólico de um país do sul global que, e é necessário falar, possui profundezas abissais do que é seu, do que não é seu, da força da imposição cultural de um centro cálculo que reuniu belezas, riquezas, tradições em um grande gabinete de curiosidades, mas no movimento do desejo de ver subjugou o afeto e a origem.
Ao alinhar abordagens teóricas das Ciências Sociais, da Memória Social e da Ciência da Informação, este artigo propõe contribuir para o debate sobre os limites e potências dos sistemas de organização do conhecimento no reconhecimento de manifestações culturais populares, quiçá de toda Organização do Conhecimento que organiza conceitos e características, modulando ordenamentos aplicados a objetos informacionais. Ao fazê-lo, destaca a urgência de políticas classificatórias mais sensíveis à diversidade cultural e à pluralidade de saberes presentes no Brasil, principalmente relacionados às questões voltadas ao reconhecimento do patrimônio cultural imaterial.
METODOLOGIA
A presente pesquisa adota uma abordagem exploratória e qualitativa, com base em métodos bibliométricos e análise de conteúdo. O objetivo foi investigar a presença e a abordagem do patrimônio cultural imaterial na literatura científica internacional, com ênfase na produção indexada na base Web of Science – Core Collection. A estratégia metodológica foi composta por três etapas principais: (1) extração dos dados bibliográficos; (2) análise bibliométrica e visualização de redes; e (3) análise de conteúdo dos documentos classificados na área de Information Science & Library Science.
A primeira etapa consistiu na busca pela expressão temática “immaterial AND cultural AND heritage” no campo “tópico” (título, resumo e palavras-chave) da Web of Science. Essa busca recuperou 440 registros, abrangendo publicações entre os anos de 2000 e 2024. Os resultados foram exportados no formato plaintext e tab-delimited, possibilitando o tratamento dos dados em softwares especializados.
Na segunda etapa, os dados foram analisados com o auxílio do software VOSviewer, utilizado para gerar mapas de coocorrência de palavras-chave e de coautoria entre países. Para a análise de palavras-chave, estabeleceu-se o limiar mínimo de 10 ocorrências por termo, resultando em 17 termos selecionados. O VOSviewer permitiu a identificação de termos centrais, força de ligação total e agrupamentos temáticos (clusters), proporcionando uma visão estruturada das tendências do campo. No caso do mapa de coautoria, o critério mínimo adotado foi a publicação de cinco documentos por país, o que levou à inclusão de 19 países no mapa final.
Na terceira etapa, foi realizada uma análise descritiva e interpretativa dos dados extraídos, incluindo: (a) os países mais produtivos e com maior impacto (medido por citações); (b) as categorias temáticas da Web of Science com maior incidência entre os registros; e (c) a verificação da presença da temática “Festa Junina” nas publicações, por meio da leitura de títulos, resumos e palavras-chave. Ainda nessa etapa, realizou-se uma análise de conteúdo das publicações classificadas na categoria “Information Science & Library Science”, totalizando nove documentos. Essa análise teve como foco identificar as abordagens, objetos de estudo e contribuições específicas da área da Ciência da Informação para o debate sobre o patrimônio imaterial.
Por fim, todos os dados foram sistematizados e integrados em gráficos, mapas visuais e tabelas, de modo a subsidiar a discussão crítica dos resultados, evidenciar lacunas e apontar possibilidades para futuras investigações.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A partir da visualização gerada no VOSviewer, observa-se um panorama estruturado das principais tendências temáticas que compõem o debate sobre o patrimônio cultural imaterial. O mapa de coocorrência de palavras-chave evidencia a formação de núcleos conceituais, associações temáticas e agrupamentos semânticos que contribuem para a compreensão da configuração atual do campo. (Figura 1)
Os termos mais centrais e frequentes são "cultural heritage", com 73 ocorrências e força de ligação total de 27, e "heritage", com 51 ocorrências e força de ligação de 42. Ambos desempenham papeis centrais na rede de coocorrência, servindo como eixos estruturantes que articulam diferentes dimensões do debate acadêmico. O termo "intangible cultural heritage", com 24 ocorrências, também se destaca como um conceito utilizado, refletindo a consolidação da terminologia promovida pela UNESCO no âmbito das políticas de salvaguarda do patrimônio cultural imaterial.
Os temas relacionados à identidade ("identity"), memória ("memory"), turismo ("tourism"), conservação ("conservation"), gestão ("management") e representação ("representation") apresentam forte conectividade com os núcleos centrais. Essas conexões indicam que a produção científica sobre patrimônio imaterial está voltada, para três eixos temáticos: (1) o papel do patrimônio na construção de identidades coletivas; (2) a sua função na preservação da memória social; e (3) a sua instrumentalização como recurso pedagógico, turístico e de desenvolvimento sustentável.
Por outro lado, termos como "immaterial cultural heritage" e "cultural-tourism" surgem com menor frequência e força de ligação, o que pode sinalizar variações terminológicas ainda não plenamente consolidadas ou, ainda, abordagens mais específicas e pontuais no interior da literatura científica.
Figura 1. Mapa de coocorrência de palavras-chave sobre Patrimônio Cultural Imaterial
Fonte: Elaboração das autoras
A estrutura do mapa revela a formação de múltiplos clusters temáticos, evidenciados pelas cores distintas. Um primeiro agrupamento parece vinculado à discussão sobre gestão e conservação do patrimônio; um segundo concentra-se nas articulações entre educação, cultura e identidade; e um terceiro está mais relacionado aos temas da memória e da paisagem cultural. Esses agrupamentos sugerem que o campo é multidimensional e que diferentes perspectivas temáticas contribuem para a complexidade das abordagens sobre o patrimônio cultural imaterial.
A análise dos países com produção científica sobre patrimônio cultural imaterial, revela padrões de colaboração internacional, produtividade e número de citações. O mapa de coautoria entre países foi elaborado com um limiar mínimo de cinco documentos por país, resultando em 19 países selecionados entre os 58 inicialmente identificados.
Entre os países com maior volume de publicações destacam-se a Itália (105 documentos), Brasil (74), Espanha (70), Portugal (22) e Alemanha (19). No entanto, quando observamos o número de citações, a Espanha lidera expressivamente com 1.159 citações, seguida de Alemanha (1.123), Itália (709) e Holanda (196), o que indica não apenas uma elevada produtividade, mas também um impacto significativo da pesquisa produzida nesses contextos. (Gráfico 1).
Gráfico 1. Quantidade de documentos e citações sobre patrimônio imaterial por país (Web of Science)
Fonte: Elaboração das autoras
A análise de coautoria revela que Inglaterra, Espanha e Itália são os países com maior força total de ligação (13, 13 e 12, respectivamente), evidenciando forte articulação internacional em projetos de pesquisa conjuntos. O cluster liderado pela Itália se apresenta como um importante polo de colaboração, conectando-se com países como Estados Unidos, Canadá, França e Suécia. Já a Espanha forma um cluster interligado com Brasil, Portugal e Chile, indicando uma rede de cooperação sólida entre países ibero-americanos.
O Brasil se destaca como o único país da América Latina com produção significativa (74 documentos) e força de ligação relevante (7), principalmente com Espanha e Portugal, o que pode ser interpretado como resultado de proximidades linguísticas e culturais, além de interesses comuns na preservação de manifestações tradicionais.
Outros países com destaque são Inglaterra, que apresenta conexões com Alemanha, Dinamarca, Holanda e Suíça, compondo um cluster europeu mais voltado ao norte e centro do continente, e China, que aparece integrada ao sistema internacional, ainda que com menor força de ligação.
Por fim, países como Croácia, Romênia, Colômbia e México, apesar de cumprirem os critérios mínimos de inclusão, apresentam baixa força de ligação com os demais países (entre 0 e 2), o que indica uma atuação mais isolada ou incipiente no cenário colaborativo global sobre o tema, conforme a Figura 2.
Figura 2. Mapa de coautoria entre países na produção científica sobre patrimônio cultural imaterial
Fonte: Elaboração das autoras
No que se refere a distribuição das publicações sobre patrimônio cultural imaterial por categorias da Web of Science evidencia a natureza multidisciplinar do tema e os diferentes enfoques assumidos pelas áreas do conhecimento.
Gráfico 2. Categorias da Web of Science
Fonte: Elaboração das autoras
As categorias mais representativas são “Humanities, Multidisciplinary”, com 71 publicações, e “Architecture”, com 68, seguidas por “History”, com 48 registros. Esses dados indicam que o debate em torno do patrimônio imaterial é fortemente ancorado nas humanidades, com ênfase em abordagens voltadas à memória, identidade, história e espacialidade. O destaque da categoria “Architecture” também revela a preocupação com o entorno físico e urbanístico das manifestações culturais, mesmo quando estas são de natureza imaterial.
Outras áreas com participação expressiva são “Art” e “Hospitality, Leisure, Sport & Tourism”, ambas com 28 publicações, o que sinaliza o valor simbólico e econômico do patrimônio imaterial. Tais produções costumam enfocar a relação entre cultura, expressão artística, turismo e lazer, considerando o patrimônio como um ativo cultural que pode ser apropriado em contextos de desenvolvimento regional e experiências culturais.
As ciências sociais e interdisciplinares também se fazem presentes, com destaque para categorias como “Geography” (26), “Computer Science, Interdisciplinary Applications” (22), “Environmental Sciences” (21) e “Social Sciences, Interdisciplinary” (18). Essas áreas indicam abordagens mais integradas que combinam aspectos espaciais, tecnológicos, ambientais e sociais na preservação do patrimônio cultural. A presença da categoria “Green & Sustainable Science & Technology” (18) reforça essa tendência, apontando o alinhamento do campo com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente no que diz respeito à preservação do patrimônio como bem coletivo e ecológico.
A educação também aparece como um vetor importante de articulação com o patrimônio imaterial, como revela a presença da categoria “Education & Educational Research” (19). Os estudos nesse eixo tendem a explorar estratégias pedagógicas, ações extensionistas e mediações educativas voltadas à valorização e à salvaguarda dos saberes tradicionais.
Por outro lado, observa-se uma baixa incidência da categoria “Information Science & Library Science”, com apenas 9 publicações, o que aponta para uma limitada inserção da Ciência da Informação na literatura internacional sobre o tema, ao menos no recorte analisado. Dado o potencial da área para contribuir com metodologias de organização, preservação digital e acesso à informação patrimonial, este dado sugere uma oportunidade para ampliar a atuação e visibilidade da disciplina frente aos desafios contemporâneos da salvaguarda cultural.
Observa-se que o tema é atravessado por múltiplas disciplinas, com predomínio das humanidades e crescente participação de áreas voltadas à sustentabilidade, tecnologia, turismo e educação. A inserção da Ciência da Informação neste debate pode contribuir para a ampliação e socialização da importância sobre a preservação dos bens culturais, por isso analisa-se a seguir as abordagens encontradas nas publicações da CI.
ANÁLISE DE CONTEÚDO DAS PUBLICAÇÕES DA ÁREA INFORMATION SCIENCE & LIBRARY SCIENCE
A análise de nove publicações da área Information Science & Library Science revela uma contribuição significativa da Ciência da Informação para os estudos sobre patrimônio cultural imaterial. A partir da leitura dos títulos, resumos e palavras-chave, foi possível identificar seis eixos temáticos recorrentes, que indicam uma abordagem multidimensional e interdisciplinar do tema.
O primeiro eixo trata do patrimônio imaterial e das políticas de salvaguarda. Os artigos destacam a atuação de instituições como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) no processo de registro de bens culturais imateriais no Brasil. Em especial, o estudo de Albuquerque et al. (2021) analisa as tensões sociais presentes na instrução de registro de cinco bens culturais no Nordeste, enfatizando a importância da representatividade, da intervenção comunitária e dos critérios legais envolvidos.
O segundo eixo diz respeito à museologia digital e aos ambientes informacionais interativos. Iniciativas como as descritas por Mello et al. (2012; 2015) relatam experiências práticas com o desenvolvimento de sistemas de informação voltados à memória cultural, utilizando ferramentas de software livre para registrar entrevistas orais, imagens e textos relacionados a manifestações culturais em Sergipe. Os autores propõem ainda a criação de glossários eletrônicos e bases de dados acessíveis, com fins educativos, contribuindo para a inovação no ensino de museologia.
Outro foco importante é a representação documental do patrimônio imaterial. O estudo de Lima et al. (2022) propõe um modelo de representação informacional para o grafite urbano, considerando aspectos descritivos, temáticos, ideológicos e espaciais. O artigo se destaca por tratar uma manifestação efêmera como recurso informacional, ampliando as fronteiras da organização do conhecimento na Ciência da Informação.
O quarto eixo está associado às reflexões epistemológicas sobre as categorias patrimoniais. O trabalho de Souza e Crippa (2011) crítica a tradicional divisão entre patrimônio material e imaterial, argumentando que essa separação é mais normativa do que experiencial. Os autores propõem compreender o patrimônio como um processo híbrido, composto por dimensões tangíveis e simbólicas interligadas, o que exige abordagens interdisciplinares e integradoras.
A presença da tecnologia como mediadora da preservação cultural é enfatizada no quinto eixo, voltado à aplicação de ferramentas digitais para modelagem, mapeamento e disseminação. O estudo de Tamborrino e Rinaudo (2015) apresenta o uso de modelagem 3D, GIS e hipermídia para compreender a história urbana de Turim (Itália), demonstrando como a digitalização pode ampliar o acesso e o entendimento do patrimônio, incluindo aspectos imateriais presentes na paisagem urbana.
Por fim, um sexto eixo temático refere-se às territorialidades e identidades locais, exploradas em artigos como o de Nascimento (2016) e o de Dalla Zen e Fontanari (2019). Ambos analisam o papel do patrimônio imaterial na constituição da identidade social e na preservação da memória coletiva. O primeiro discute o valor simbólico do cemitério japonês no interior paulista, enquanto o segundo investiga a experiência pedagógica de recuperação da memória dos balseiros em Santa Catarina, articulando ações museológicas, educativas e comunitárias.
As publicações analisadas evidenciam que a Ciência da Informação tem se mostrado como um campo relevante para os estudos e práticas de preservação do patrimônio cultural imaterial. Sua contribuição ocorre tanto na produção de conhecimento, quanto na criação de soluções tecnológicas e metodológicas voltadas à organização, representação e acesso à informação cultural.
ANÁLISE DO TERMO “FESTA JUNINA” NA PRODUÇÃO CIENTÍFICA SOBRE PATRIMÔNIO CULTURAL IMATERIAL
A análise dos registros da Web of Science que tratam de patrimônio cultural imaterial identificou a presença de trabalhos que, embora não mencionem diretamente o termo “Festa Junina”, abordam festas tradicionais brasileiras que compartilham elementos culturais semelhantes, como festividades religiosas, manifestações populares e práticas alimentares típicas. Dentre os estudos analisados, destacam-se duas publicações com maior proximidade temática.
O trabalho de Farinha e Cerqueira (2019) analisa uma tradicional festa religiosa no Rio Grande do Sul, com raízes no catolicismo popular luso-brasileiro. A pesquisa ressalta a importância simbólica e identitária da festividade como patrimônio imaterial da comunidade de pescadores, discutindo sua memória coletiva e sua vulnerabilidade diante das transformações sociais. Já o estudo de Rocha (2025) foca na festa de Santo Antônio, comparando as tradições religiosas e culturais de Lisboa (Portugal) e Barbalha (Brasil). Embora o foco seja a festa do santo padroeiro, observam-se elementos que também estão presentes nas festas juninas, como a devoção popular, a música, a comida típica e o uso do espaço público como cenário de lazer e sociabilidade.
Esses trabalhos revelam que, apesar da ausência da terminologia direta “Festa Junina” nos títulos e resumos, as festas populares com características semelhantes estão presentes nas pesquisas sobre patrimônio imaterial, demonstrando a relevância dessas celebrações na construção de identidades locais e na preservação da memória cultural.
A abordagem na Ciência da Informação ainda é incipiente, mas há potencial para estudos que articulem memória, representação e organização da informação em torno dessas manifestações culturais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise da produção científica sobre patrimônio cultural imaterial, a partir de registros indexados na Web of Science, permitiu traçar um panorama temático, geográfico e disciplinar do campo. A visualização de coocorrência de palavras-chave evidenciou a centralidade dos termos "cultural heritage", "heritage" e "intangible cultural heritage", e a articulação com eixos temáticos como identidade, memória, turismo e conservação. Esses resultados demonstram que o patrimônio cultural imaterial é compreendido como um bem a ser preservado e como um recurso simbólico, político e social.
No plano internacional, os dados apontam para uma dinâmica de colaboração científica liderada por países europeus, como Itália, Espanha e Inglaterra, com destaque para a inserção do Brasil no cenário latino-americano. A força de coautoria entre Brasil, Portugal e Espanha sugere a existência de redes de pesquisa em torno de tradições culturais ibero-americanas. A análise por categorias da Web of Science confirmou a predominância das áreas de humanidades, artes e arquitetura, ao mesmo tempo em que revelou a presença de abordagens interdisciplinares voltadas à sustentabilidade, tecnologia e educação.
Em relação à área de Ciência da Informação, embora a representatividade quantitativa foi pequena, a análise de conteúdo das publicações mostrou uma contribuição qualitativa. Os estudos abordam temas como políticas de salvaguarda, museologia digital, representação documental, epistemologia do patrimônio, modelagem digital e territorialidades culturais. Tais abordagens demonstram a capacidade da CI de integrar diferentes metodologias e de atuar na mediação entre memória social e tecnologias de informação.
A investigação sobre a presença da temática “Festa Junina” mostrou que, embora o termo não seja diretamente mencionado, há publicações que exploram festas religiosas e populares com elementos culturais convergentes. Essas manifestações, centradas na tradição, na oralidade e na religiosidade popular, representam importantes expressões do patrimônio imaterial brasileiro. A ausência da Festa Junina como objeto direto de estudo em bases internacionais como a Web of Science evidencia uma lacuna que pode ser explorada por futuras pesquisas, especialmente aquelas desenvolvidas no âmbito da Ciência da Informação, cujas ferramentas de representação e acesso à informação podem contribuir para a valorização dessas manifestações culturais.
Um achado que merece continuidade de investigação para pesquisas futuras relaciona-se aos eixos de pesquisa desenvolvidos na Ciência da Informação: (1) patrimônio cultural imaterial e das políticas de salvaguarda; (2) museologia digital e ambientes informacionais interativos; (3) representação documental do patrimônio cultural imaterial; (4) reflexões epistemológicas sobre as categorias patrimoniais; (5) aplicação de ferramentas digitais para modelagem, mapeamento e disseminação e (6) territorialidades e identidades locais.
Os indicadores analisados evidenciam que há uma ausência de discurso científico consolidado sobre o patrimônio imaterial associado a manifestações identitárias brasileiras, como a Festa Junina, principalmente no campo da Ciência da Informação. Assim, os ditos e não-ditos revelam um jogo presente na própria dinâmica da memória: o que pode ou deve ser lembrado, ou, o que pode ou deve ser esquecido. A partir da ideia de que escolher é sempre uma atividade que inclui ou exclui, neste estudo foi possível perceber o quanto a temática em questão ainda sofre os impactos do eurocentrismo acadêmico.
Os estudos sobre patrimônio cultural imaterial revelam conjuntos complexos de bens e manifestações postos, muitas vezes, em condição de silenciamento, fadados ao desaparecimento se não forem preservados. O registro no discurso científico abre espaço para a socialização de conhecimentos que são transmitidos de geração em geração, recriados por mestres, comunidades e grupos sociais que afirmam saberes e fazeres em seus territórios. Há um sentimento de pertencimento que garante a manutenção da identidade desses grupos e contribui para o fortalecimento e respeito à diversidade cultural.
Mais do que nunca, urge a necessidade de discutirmos os atravessamentos decorrentes do processo de colonização e, reafirmando: na periferia subalternizada da escrita, da lei, do que é dito e do que é não-dito, a nova perspectiva de uma escolha classificatória a diferença e sua modulação criadora de semânticas possíveis produz redes semânticas de resistências. Dito isso, às pesquisas sobre patrimônio cultural imaterial não podem estar desarticuladas de uma discussão cultural-epistemológica, afinal cultura é fenômeno social. A festa junina enquanto manifestação cultural reafirmada por Achilles, Sabbag e Rocha (2024) simultaneamente como espaço de memória, resistência e construção de identidades, mas também está sujeita a mecanismos de silenciamento produzidos pelas esferas do poder.
Neste caleidoscópio ambíguo e polissêmico, é possível afirmar que o conceito de patrimônio cultural imaterial participa das disputas e jogos de forças: o que deve ou não ser reconhecido como patrimônio, como o que deve ser instituído. Diante da retórica academicista tal ausência reflete uma lacuna temática e aponta para uma desarticulação entre os campos do patrimônio cultural imaterial, da Memória Social e da Ciência da Informação.
Considerando que essas festas desempenham um papel relevante na preservação da identidade nacional e na transmissão de saberes coletivos, a pouca incidência do tema no campo informacional revela a urgência de ampliar o engajamento da área com as discussões culturais contemporâneas, contribuindo para políticas de preservação mais inclusivas, representativas e contextualizadas. E, para além disso, compreender que a categoria conceito ‘patrimônio cultural imaterial’, mesmo que associada às significações arroladas neste estudo, trata-se de uma categoria híbrida, dotada de fluidez que se localiza entre o meio e o tempo, que admite uma realidade dinâmica dos processos de preservação e hibridação das manifestações, por exemplo.
Assim, os silenciamentos, os apagamentos, os ditos e os não-ditos presentes no discurso acadêmico só trazem à tona a nova perspectiva de uma escolha classificatória a diferença e sua modulação criadora de semânticas possíveis que redes semânticas de resistências considerando a condição híbrida que implica na quebra de hierarquias científicas. Mas, como isso será possível? Esquecendo a frieza dos regimes de informação baseados nas disputas (num conjunto de jogos de verdades), como também reconhecendo efetivamente a importância da participação dos detentores do patrimônio não apenas na gestão patrimonial, mas sobretudo na construção do conhecimento acionando novas fórmulas epistemológicas articulando dois campos: a Memória Social, transdisciplinar por excelência e a Ciência da Informação, interdisciplinar que admite entrecruzamentos e novas aberturas possíveis através do olhar da organização do conhecimento.
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