Faculdade de Letras da Universidade do Porto - OCS, VII Congresso ISKO Espanha e Portugal / XVII Congresso ISKO Espanha

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Questões éticas na Organização do Conhecimento: dos Sistemas de Recomendação à Inteligência Artificial Generativa
Sara de Carvalho, Maria Manuel Borges

Última alteração: 2025-06-17

Resumo


Resumo:

Este trabalho pretende apresentar uma sistematização das questões éticas na Organização do Conhecimento tendo como eixos paradigmáticos o estudo dos Sistemas de Recomendação e da Inteligência Artificial Generativa. Partindo de uma revisão crítica da literatura visa refletir sobre as implicações éticas e as contribuições que a Organização do Conhecimento, enquanto campo de estudo, pode trazer ao debate ético transdisciplinar contemporâneo.

Palavras-Chave: Ética; Inteligência Artificial Generativa; Sistemas de Recomendação; Organização do Conhecimento.

Tendo por base um corpus de investigação sobre os princípios éticos na Inteligência Artificial (Ashok, et al., 2022; Fjeld, et.al., 2020; COMEST 2017; 2021; Morley, et al., 2020; Floridi, et al., 2018, 2019; Jobin, et al., 2019; GPAN IA (2019); Bleher & Braun, 2023; UNESCO, 2023; Panai, 2024) relacionam-se as questões éticas com a Organização do Conhecimento (OC), aplicadas aos Sistemas de Recomendação (SR) e à Inteligência Artificial Generativa (IA GEN). O percurso investigativo proposto congrega, além disso, a organização intelectual ou cognitiva do conhecimento e a própria organização social do conhecimento (Hjørland, 2008, 2016, 2023).

Inicialmente, e de forma sumária, apresenta-se o panorama dos princípios éticos na Inteligência Artificial para, em seguida, se aprofundarem as noções de SR e IA GEN, no contexto das suas implicações teóricas e práticas na OC. Este percurso conduz ao exercício de mapeamento de um bloco conceptual, a partir do qual são analisadas e debatidas as questões éticas que se desenham na OC.

Objetivos:

O estudo tem como objetivo geral a sistematização das questões éticas emergentes na OC, no contexto dos SR e da IA GEN. Como objetivos específicos pretende-se identificar os principais desafios éticos na OC, avaliar as implicações éticas dos SR e explorar os desafios éticos da IA GEN.

Metodologia:

Para responder à questão de investigação que norteia este trabalho - que questões éticas se apresentam à OC ao estudar os SR e a IA GEN - adotou-se uma abordagem metodológica qualitativa, de natureza exploratória, descritiva/interpretativa. O estado da arte é suportado pelos resultados da pesquisa bibliográfica na Web of Science, Library & Information Science Source, b-on e Scopus. Num primeiro momento, os artigos recuperados foram analisados - título, palavras-chave e resumo. Posteriormente, os dados foram sistematizados, eliminando-se os duplicados e os artigos não pertinentes. À medida que se aprofundaram as leituras, procedeu-se à inclusão de pistas bibliográficas que se revelaram frutíferas para a investigação. Por fim, procedeu-se à análise crítica e sistematização, no sentido de perceber as interrogações éticas e as metamorfoses nas práticas e resultados do universo do conhecimento.

Resultados:

Os resultados preliminares evidenciam que ao adotar uma estratégia interdisciplinar é possível fazer o mapeamento das questões que emergem na OC, consubstanciando-se nos seguintes blocos conceptuais: centralidade da pessoa humana; coevolução e feedback nos ecossistemas humano – IA; responsabilidade e governação; universo de desinformação (deepfakes); viés algorítmico e reforço de estereótipos e preconceitos; equidade, discriminação e desigualdades; proteção de dados, privacidade e identidade; integridade da investigação;  impacto nos critérios de evidência e verificação da verdade; personalização do conhecimento e os seus impactos na diversidade informacional; bolhas informacionais e câmaras de eco; estudos empíricos versus estudos de simulação; IA GEN e a criatividade humana; direitos autorais e propriedade intelectual;  precisão, fiabilidade e relevância da informação; perda de proveniência e contexto da informação; problemática dos dados sintéticos e autoridade epistémica.

Conclusões:

Neste vasto universo, onde confluem múltiplos paradigmas, a seleção dos constructos SR e IA GEN permitiu o mapeamento conceptual preliminar para uma posterior análise crítica das questões éticas que se colocam à OC.

O impregnar da IA nas mundividências contemporâneas torna fundamental o questionamento dos pressupostos teóricos, epistemológicos e ontológicos que subjazem à OC, obrigando a um movimento de reflexão, no sentido de se interrogarem pressupostos, critérios e fundamentos a partir dos quais os Processos de Organização do Conhecimento (POC) e os Sistemas de Organização do Conhecimento (SOC) são pensados e desenvolvidos (Ibekwe-SanJuan & Bowker, 2017).

Face à opacidade algorítmica na sua tripla dimensão – dos sistemas proprietários e empresariais; da tecnicidade que implica uma literacia de alto nível; e do desfasamento entre a otimização matemática da aprendizagem automática e o raciocínio à escala humana, de interpretação semântica (Burrel, 2016) – o papel da OC poderá ser decisivo.

O universo ético, convocado no terreno da IA, implica uma metodologia hermenêutica de reconfiguração das teorias do conhecimento, da informação, do sujeito, do objeto, da relação do eu com o mundo, da liberdade, dignidade, autonomia humana, responsabilidade e, em última instância, da Democracia participativa.

A partir desta análise surgem potenciais pistas para futuras investigações, com os contributos do estado atual da literatura, enfatizando-se a ética como desafio seminal para a Organização do Conhecimento.

 

Referências Bibliográficas:

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