Última alteração: 2025-06-17
Resumo
Este estudo tem como foco central o mapeamento e a análise das múltiplas configurações teóricas e práticas que têm problematizado a Organização do Conhecimento brasileira no âmbito da Biblioteconomia e da Ciência da Informação, com especial ênfase nas abordagens críticas que vêm emergindo nos últimos anos. Reconhecida historicamente como uma subárea consolidada, a Organização do Conhecimento sempre esteve comprometida com a representação e sistematização da informação, operando por meio de instrumentos como sistemas de classificação, vocabulários controlados e tesauros. Esses mecanismos, embora essenciais à organização de acervos e à recuperação da informação, foram por muito tempo concebidos sob uma lógica funcionalista e, frequentemente, marcada por uma suposta neutralidade epistemológica. Contudo, nas últimas décadas, e de modo mais acentuado nos anos recentes, a Organização do Conhecimento tem sido tensionada por transformações de ordem epistemológica, social, política e tecnológica. Tais mudanças têm provocado revisões conceituais significativas, bem como o reposicionamento de suas bases metodológicas, na direção de perspetivas mais críticas, contextualizadas e socialmente comprometidas. As exigências contemporâneas impõem à área o desafio de se repensar como um campo de mediação simbólica que incide diretamente sobre os modos de produção, legitimação e circulação do conhecimento. Partindo dessa compreensão, o presente estudo adota como premissa que refletir criticamente sobre a Organização do Conhecimento é, em essência, refletir sobre as estruturas de poder, os valores culturais e os regimes de visibilidade que atravessam os processos de organização e representação da informação. Questões como diversidade, inclusão, justiça cognitiva, acessibilidade informacional, epistemologias plurais, abordagens decoloniais, práticas interseccionais e os impactos das tecnologias digitais passam a ocupar um lugar de centralidade nas discussões acadêmicas contemporâneas, desafiando os modelos tradicionais da área. O objetivo principal da pesquisa é investigar como as linhas de estudos críticos vêm sendo abordadas na produção científica brasileira de Organização do Conhecimento, com especial atenção aos caminhos teóricos, metodológicos e empíricos que têm sustentado tais discussões. O percurso metodológico contou com a seleção de dez revistas científicas de destaque no campo da Biblioteconomia e Ciência da Informação brasileira, são elas: Brazilian Journal of Information Science (Qualis A4; Universidade Estadual Paulista), Em Questão (Qualis A2; Universidade Federal do Rio Grande do Sul), Encontros Bibli (Qualis A2; Universidade Federal de Santa Catarina), InCID: Revista de Ciência da Informação e Documentação (Qualis A3; Universidade de São Paulo), Informação & Informação (Qualis A2; Universidade Estadual de Londrina), LIINC em Revista (Qualis A3; Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia), Perspectivas em Ciência da Informação (Qualis A2; Universidade Federal de Minas Gerais), Ponto de Acesso (Qualis B1; Universidade Federal da Bahia), Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentação (Qualis A3; Federação Brasileira de Associações de Bibliotecários, Cientistas da Informação e Instituições), e Transinformação (Qualis A1; Pontífica Universidade Católica de Campinas). A análise destes periódicos concentrou-se nas edições publicadas entre os anos de 2021 e 2024, período que reflete um recorte estratégico para compreender os debates mais atuais. A partir da análise qualitativa dos artigos, foi possível identificar tanto continuidades quanto rupturas no modo como a Organização do Conhecimento tem sido concebida. Como resultados destaca-se a valorização crescente de instrumentos como ontologias, taxonomias, entre outros Sistemas de Organização do Conhecimento aplicados a contextos digitais e institucionais, o que denota uma aproximação entre as ferramentas tradicionais da Organização do Conhecimento e as novas exigências tecnológicas. Paralelamente, observa-se o surgimento de investigações que integram preocupações éticas, sociais e políticas aos processos de representação da informação, ainda que essas abordagens críticas não sejam, em muitos casos, o foco central das pesquisas. A análise temática dos artigos permitiu identificar algumas linhas críticas de atuação como, por exemplo, aplicações práticas de Sistemas de Organização do Conhecimento com foco em contextos educacionais; reflexões teóricas e metodológicas sobre o papel da Organização do Conhecimento frente às novas demandas informacionais, especialmente em ambientes digitais e; discussões sobre acessibilidade e inclusão, ampliando o escopo da Organização do Conhecimento para aspectos éticos e sociais. As conclusões evidenciam algumas lacunas, apesar dos avanços, especialmente no que diz respeito à incorporação de perspetivas interseccionais, decoloniais e de gênero, que ainda ocupam um espaço marginal na produção analisada. Tais ausências indicam a necessidade de ampliar os marcos teóricos e metodológicos da área, de modo a contemplar a complexidade dos contextos sociais e culturais em que os Sistemas de Organização do Conhecimento são implementados.
Palavras-chave: Organização do Conhecimento no Brasil; Teorias críticas; Observatório de pesquisa