Faculdade de Letras da Universidade do Porto - OCS, VII Congresso ISKO Espanha e Portugal / XVII Congresso ISKO Espanha

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Representando o conhecimento arquivístico: os conceitos de garantia e hospitalidade cultural no âmbito do Modelo Conceitual Records in Contexts
Igor Muniz Pereira, Natália Bolfarini Tognoli

Última alteração: 2025-06-17

Resumo


A organização e representação do conhecimento arquivístico envolve funções distintas e complementares, com destaque para a classificação e a descrição. Enquanto a primeira estrutura os documentos a partir das funções e atividades do órgão produtor, a segunda acrescenta camadas de informação que possibilitam a compreensão do conteúdo e do contexto de uso dos documentos, ampliando o acesso e a recuperação da informação. No contexto das discussões sobre inclusão e diversidade nos sistemas de organização do conhecimento, este trabalho propõe articular os conceitos de garantia cultural e hospitalidade cultural, formulados por Clare Beghtol, ao Modelo Conceitual Records in Contexts (RiC-CM), desenvolvido pelo Conselho Internacional de Arquivos.

O objetivo da comunicação é verificar se e como os conceitos de garantia e hospitalidade cultural estão contemplados no RiC-CM, especialmente no que tange à representação das diversas realidades culturais nos arquivos. A metodologia utilizada é a revisão bibliográfica, com base em artigos teóricos e documentos normativos da área de Arquivologia, bem como nos textos fundantes do modelo RiC-CM e nas obras de Beghtol (2002; 2005). O percurso analítico parte da apresentação dos conceitos de Beghtol e sua aplicação aos sistemas de organização do conhecimento, avança para um panorama histórico da descrição arquivística e, por fim, analisa as características, entidades e relações propostas pelo RiC-CM.

Como resultado, identifica-se que o modelo conceitual RiC-CM representa um avanço significativo em relação às normas tradicionais, ao propor uma descrição multidimensional em substituição à estrutura hierárquica e multinível. Essa abordagem possibilita representar documentos, agentes, funções, lugares e eventos de maneira inter-relacionada, refletindo com maior precisão os múltiplos contextos de criação, uso e interpretação dos documentos arquivísticos. O modelo também se mostra flexível, expansível e interoperável, características essenciais para contemplar a diversidade cultural e permitir que comunidades historicamente marginalizadas — como povos indígenas e quilombolas — possam ser representadas segundo seus próprios termos, valores e práticas.

Conclui-se que o RiC-CM, ao permitir a descrição contextualizada e relacional, incorpora os princípios de garantia e hospitalidade cultural, tornando-se um instrumento potente para a promoção da inclusão informacional nos arquivos. Assim, reforça-se o papel dessas instituições como espaços de memória coletiva, capazes de representar diferentes grupos sociais de forma ética, sensível e plural, contribuindo para o fortalecimento da cidadania e da justiça social por meio da preservação e do acesso à informação em seus múltiplos significados.