Faculdade de Letras da Universidade do Porto - OCS, VII Congresso ISKO Espanha e Portugal / XVII Congresso ISKO Espanha

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Neutralidade na representação de assuntos: percepções dos bibliotecários da Universidade de Coimbra
Inês Martins Santos, Ana Lúcia Terra, Liliana Esteves Gomes

Última alteração: 2025-06-17

Resumo


Tema 1 – Ética na teoria e nas práticas de Organização do Conhecimento

Título - Neutralidade na representação de assuntos: percepções dos bibliotecários da Universidade de Coimbra

Palavras-chave: Sistemas de Classificação do Conhecimento; Representação de assuntos; Percepções dos Bibliotecários.

Os Sistemas de Organização do Conhecimento (SOCs) têm sido objeto de críticas sob diferentes perspectivas, incluindo problemas decorrentes de preconceito, categorizações dicotômicas, visões do mundo muito específicas, falta de precisão terminológica, polissemia e uso envolvido do politicamente correto nas representações de assuntos (Martínez-Ávila & Guimarães, 2013). Se, por um lado, temos as fragilidades dos sistemas de classificação, que refletem o pensamento de um determinado contexto socioeconômico, cultural e político da época em que foram criados, por outro temos as convicções e visões do mundo por parte dos profissionais da informação/bibliotecários que os usam na sua prática profissional.

É escassa a literatura científica que explora o posicionamento eficaz dos bibliotecários acadêmicos face à questão da neutralidade (McEnroe, 2024). Considerando esta lacuna, a questão de partida desta investigação é: Qual é a percepção dos bibliotecários da Universidade de Coimbra (UC) relativamente à neutralidade na representação de assuntos?

Considerando o universo temático e o eixo de estudo apresentado, bem como a questão levantada, o objetivo geral da investigação é auscultar a percepção dos bibliotecários da UC relativamente à neutralidade na representação de assuntos. Como objetivos específicos localizados: (1) analisar as visões referentes aos Sistemas de Organização do Conhecimento, com foco nos Sistemas de Classificação; (2) compreender o papel da neutralidade na representação de assuntos; (3) Descrever a percepção de uma amostra de questionados face à neutralidade na representação de assuntos.

A metodologia adotada compreendeu a revisão de literatura e um estudo de caso concretizado mediante inquérito por questionário. Para a pesquisa de informação que sustentou o enquadramento teórico e a análise dos resultados, foram selecionadas as bases de dados Web of Science e Library(WoS) & Information Science Source(LIS). Relativamente à recuperação da informação, as equações de pesquisa utilizadas foram: i) “ethics in cataloging” AND “neutrality” AND “classification systems”; ii) “knowledge classification system” AND (“neutrality” OR “bies”), iii) “critical cataloging”, AND (“Universal Decimal Classification” OR “UDC”).

A revisão da literatura serviu para enquadrar e analisar os dados do estudo de caso. Para a recolha de dados foi concebido e aplicado um inquérito por questionário aos bibliotecários da Universidade de Coimbra com formação superior na área da Ciência da Informação ou Ciências Documentais. No período da pesquisa, nas bibliotecas da UC, identificam-se 38 profissionais com a referida formação superior. Foram obtidas 18 respostas, o que corresponde a uma taxa de adesão ao questionário de 47,4%. Como resultados preliminares destacamos:

i) Relativamente à perceção que os respondentes têm dos códigos de ética, é de referir que 8 (44,4%) indicam “não sei” quando inquiridos sobre se os códigos oferecem orientações suficientes, já para 7 (38,9%), os códigos oferecem orientações suficientes, enquanto os restantes 3 (16,7%) consideram que os códigos não dão orientações suficientes;

ii) Sobre a definição de neutralidade, todos os respondentes (n=18, 100%), numa resposta de texto longo, indicaram considerar que a neutralidade é ser imparcial e neutral, isto é, não tomar partido.

iii) Sobre as principais dificuldades em concretizar a neutralidade na representação de assuntos, 15 (83,3%) dos respondentes sentem que a principal dificuldade em concretizar a neutralidade na representação de assuntos decorre de vieses pessoais do indexador, seguido das limitações dos sistemas de classificação existentes (n. 14 - 77,8%);

iv) Relativamente à perceção da adequação dos sistemas de classificação (no caso da UC, a Classificação Decimal Universal), 5 (27,8%) dos respondentes afirmam que os sistemas de classificação são adequados, enquanto 13 (72,2%) consideram que os sistemas de classificação não são adequados, e 1 indica (5,5%) não ter conhecimento suficiente para opinar;

v) Quando inquiridos quanto à inclusão de reflexões sobre aspetos éticos na representação de assunto necessitar de receber mais atenção na formação de novos bibliotecários, 1 (5,5%) dos respondentes não considera ser um tema pertinente, 1 (5,5%) dos respondentes não têm conhecimento suficiente para opinar, e os restantes 16 (88,9%) consideram ser um assunto pertinente para ser abordado na formação académica.

Este estudo pretende contribuir para o debate sobre a ética na Organização do Conhecimento, com foco nas questões relativas à neutralidade na representação do assunto, sob o ponto de vista da prática profissional, propondo uma reflexão sobre as práticas vigentes e os desafios éticos enfrentados pelos bibliotecários.

 

Martínez-Ávila, D., & Guimarãe, JA (2013). Críticas às classificações de bibliotecas: Universalidade, pós-estruturalismo e ética. Scire: Representação e Organização do Conhecimento , 19(2) . https://doi.org/10.54886/scire.v19i2.4081

 

McEnroe, MJ (2024). Conflitos de neutralidade: explorando definições, valores e práticas entre bibliotecários acadêmicos canadenses. The Journal of Academic Librarianship, 50(6). https://doi.org/10.1016/j.acalib.2024.102958