Faculdade de Letras da Universidade do Porto - OCS, VII Congresso ISKO Espanha e Portugal / XVII Congresso ISKO Espanha

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Teoria Crítica e Inteligência Artificial: repensando a representação da mulher na organização do conhecimento
Tamiris Peniche, Cecília Barros

Última alteração: 2025-06-17

Resumo


O estudo objetiva investigar como a Teoria Crítica pode contribuir para o uso consciente da Inteligência Artificial (IA) em relação ao conceito de mulher, considerando estereótipos de gênero historicamente construídos e reproduzidos pelas tecnologias. Pretende-se discutir criticamente os modos como a IA, quando não submetida a escrutínios epistemológicos, pode reforçar desigualdades sociais e representações opressivas, especialmente no tocante à identidade feminina.

Parte-se da premissa de que as tecnologias não são neutras e que seu desenvolvimento está imerso em contextos históricos, políticos e ideológicos que moldam suas aplicações e consequências sociais. Mediante a isso, foi realizada uma pesquisa bibliográfica, seguida de leitura exploratória focada em selecionar a amostra que melhor atendesse ao contexto abordado. Utilizou-se como palavras-chave e combinações “Teoria Crítica”, “Representação da mulher”, “Organização do conhecimento”, “Classificação e gênero” e “Feminismo e ciência da informação” para realizar o levantamento na base de dados Scopus, a nível internacional e na Base de Dados em Ciência da Informação (BRAPCI), a nível nacional. Materiais dentro de um recorte de 10 anos (2016-2025) e produções que abordassem direta ou indiretamente contextos relacionados a organização da informação e do conhecimento, bem como instrumentos dedicados a tais práticas, foram selecionados tanto para o aporte teórico quanto para o método de pesquisa.

A análise crítica dos textos de Bezerra, Castells, Birman e outros autores presentes nos documentos revela que a IA, enquanto tecnologia de mediação simbólica, está imbricada em processos de racionalização técnica que carregam marcas das estruturas sociais que a originam. Segundo Bezerra, a sociedade da informação opera por meio de redes tecnológicas que, apesar de sua aparência descentralizada, reproduzem lógicas de controle e dominação compatíveis com as estruturas capitalistas e patriarcais. A IA, ao se alimentar de bases de dados históricas, pode internalizar e replicar vieses estruturais – entre eles, os estereótipos de gênero associados à figura da mulher.

Castells (1999) argumenta que a sociedade em rede não apenas reorganiza o espaço-tempo da interação humana, mas redefine os processos de construção da identidade. Logo, a mulher, já historicamente representada de forma estereotipada pela mídia e pela cultura de massa, é reconfigurada nos ambientes digitais de acordo com os padrões algorítmicos. Essa reconfiguração, se não for objeto de reflexão crítica, reforça a naturalização de desigualdades simbólicas.

O estudo aponta ainda que a epistemologia crítica é indispensável para compreender as relações entre informação, poder e subjetividade. A crítica à razão instrumental, conforme desenvolvida pela Escola de Frankfurt, oferece ferramentas para desvelar a ideologia tecnocrática que legitima os sistemas de IA como racionais e objetivos. Ao contrário disso, autores como Adorno e Horkheimer mostram que a razão instrumental tende a suprimir a diferença e no contexto da IA, se manifesta na homogeneização dos perfis de usuário e na categorização redutora de identidades.

Além disso, o trabalho com a obra de Birman permite compreender como as subjetividades contemporâneas são moldadas por discursos normativos que atravessam tanto a psicanálise quanto as tecnologias de informação. A IA não apenas automatiza decisões, mas também participa da constituição de subjetividades, sendo capaz de afetar a autopercepção e o modo como sujeitos se inserem no mundo social. As representações da mulher geradas por IA — em assistentes virtuais, sistemas de recomendação e reconhecimento facial — tendem a refletir arquétipos patriarcais, como a docilidade, a sensualidade ou a passividade, o que reafirma os papéis de gênero tradicionais.

A partir dos dados analisados e dos referenciais teóricos mobilizados, conclui-se que a Teoria Crítica oferece um arcabouço robusto para compreender os riscos epistemológicos, éticos e políticos associados ao uso da IA no que diz respeito à construção do conceito de mulher. A crítica à neutralidade tecnológica e à razão instrumental permite desconstruir a ideologia de objetividade que cerca os sistemas automatizados, revelando suas implicações na perpetuação de desigualdades de gênero.

Portanto faz necessario que os projetos de IA incorporem princípios de justiça social, diversidade e representação crítica. Isso implica repensar as bases de dados utilizadas para treinar algoritmos, os critérios de classificação e decisão, bem como os contextos institucionais em que essas tecnologias são implementadas. A Teoria Crítica, ao promover uma postura reflexiva e emancipadora diante da técnica, contribui para o desenvolvimento de uma IA comprometida com a equidade e com a pluralidade de vozes — especialmente aquelas historicamente silenciadas, como as das mulheres.

Por fim, o estudo evidencia que uma abordagem crítica não se limita à denúncia das falhas dos sistemas tecnológicos, mas propõe alternativas éticas para seu uso. A construção de uma IA consciente do gênero requer uma aliança entre saberes técnicos e humanísticos, em que o pensamento crítico funcione como eixo central para evitar a reprodução de opressões e promover a dignidade humana em sua diversidade.