Última alteração: 2025-07-10
Resumo
Instrumentos para o controle vocabular do tipo listas de cabeçalhos de assunto e tesauros, que compõem os Sistemas de Organização do Conhecimento (SOC), são cruciais para a representação temática de documentos e recursos de informação. Entretanto, esses instrumentos podem conter representações tendenciosas e desvios, limitando a diversidade de perspectivas, tornando determinados recursos invisíveis no catálogo da biblioteca e perpetuando preconceitos sobre grupos e vozes historicamente marginalizados. A pesquisa científica em OC tem se dedicado às problemáticas e implicações culturais, políticas e sociais de seus processos, produtos e instrumentos, buscando justiça social como uma das reorientações do campo (Watson, 2021). Trabalhar pela justiça social requer mudança de práticas e de instituições opressivas e discriminatórias que continuamente adotam estruturas de injustiça, incluindo SOC, como listas de cabeçalhos de assunto e tesauros (Furner, 2018). Sistemas de organização do conhecimento, Vocabulários controlados, Listas de cabeçalhos de assunto, Tesauros, Justiça social. Em atenção às preocupações com a forma de representar vozes diversas de maneira equitativa, apresenta-se uma pesquisa que investiga os desvios e os preconceitos em SOC brasileiros em relação ao termo primitive. Especificamente, o foco recai nos vocabulários controlados, listas de cabeçalhos de assunto e tesauros. A linguagem exposta e acessível em catálogos de bibliotecas e sistemas de recuperação da informação tem grande visibilidade e impacto na experiência do usuário, justificando a ênfase desta pesquisa nos SOC escolhidos. A visibilidade desses instrumentos públicos de OC reforça a importância de uma análise crítica sobre sua elaboração e uso. É partindo de um legado de identificação de opressões e de exclusão social em SOC, peticionamento por mudanças e busca ativa de mitigação dos desvios e preconceitos que o presente trabalho se fundamenta. Para alcançar esse objetivo, realizamos uma revisão de literatura na Biblioteconomia e Ciência da Informação sobre o termo primitive, o que viabilizou identificar a presença desse termo e suas variações nos principais SOC adotados para a representação temática da informação no Brasil. A pesquisa analisou as discussões na literatura científica sobre o termo primitive a partir do relatório do Subject Analysis Committee (SAC) da American Library Association (ALA) publicado em 1984 e Berman (1971). A revisão dessas publicações permitiu identificar um conjunto de preocupações e debates relacionados aos desvios e preconceitos presentes no termo analisado. Com base nas discussões identificadas na literatura, examinou-se a presença ou a ausência do termo primitive nos principais vocabulários controlados, listas de cabeçalhos de assunto e tesauros utilizados no Brasil, compreendendo a Terminologia de Assuntos da Biblioteca Nacional do Brasil (BNB), o Vocabulário Controlado Básico (VCB) da Rede Virtual de Bibliotecas e o Vocabulário Controlado da Universidade de São Paulo (VocaUSP). Relativo às discussões teóricas sobre o termo primitive, constatam-se críticas quanto à sua imprecisão e carga negativa, associadas à noção de inferioridade que o termo denota, sendo considerado um termo pejorativo e ultrapassado. Para resolver esses problemas, foram identificadas sugestões, incluindo a substituição do termo por adjetivos como Folk e Traditional. Entende-se como relevante as sugestões do uso de subdivisões geográficas e étnicas específicas ou o nome mais específico conhecido para a cultura de origem como alternativas. Também foi identificada a sugestão da adoção de termos como Tribal art ou Indigenous art. Por sua vez, os resultados da pesquisa empírica revelam que os três SOC analisados empregam diversos termos contendo a palavra primitivo(a), mesmo após décadas de discussões na literatura especializada sobre a imprecisão e inferioridade que o termo denota, o que evidencia uma lentidão na promoção de mudanças para mitigar desvios e preconceitos. Fica patente a necessidade de ações mais céleres em relação aos termos desatualizados e que possuem conotações negativas ou ofensivas, bem como de uma postura proativa das instituições e pessoas bibliotecárias que atuam nesses espaços para garantir que os sistemas sejam precisos, atuais e socialmente inclusivos. Além disso, a pesquisa ressalta um descompasso entre as discussões presentes na literatura e a efetiva implementação de mudanças. Os resultados demonstraram a utilização do termo primitive e suas variações, evidenciando a lentidão dos principais SOC brasileiros em promover mudanças. Esse uso persistente compromete a eficiência e reputação dos sistemas como ferramentas de recuperação de informações. Diante desses achados, é vital que os SOC passem por revisões constantes de modo a garantir uma representação precisa e socialmente justa, com atenção especial aos grupos minorizados. A fim de avançar neste ponto, recomenda-se a implementação de mecanismos institucionalizados para solicitar e monitorar a revisão de termos, além de tornar públicas as mudanças realizadas e suas justificativas. Acredita-se que essa transparência e prestação de contas podem melhorar a confiança da sociedade nas instituições, demonstrando o compromisso em promover inclusão e diversidade nos SOC.