Faculdade de Letras da Universidade do Porto - OCS, VII Congresso ISKO Espanha e Portugal / XVII Congresso ISKO Espanha

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Fluxos da Comunicação Científica e Inclusão de Novos Saberes: o Pole Dance como Objeto Emergente na Organização do Conhecimento
Gabriela da Silva Conceição, Michely Jabala Mamede Vogel

Última alteração: 2025-06-17

Resumo


Eixo Temático 3 – Inclusão e diversidade em Organização do Conhecimento
Resumo: Esta comunicação propõe uma reflexão sobre os fluxos da comunicação científica à luz das discussões contemporâneas acerca da inclusão e da diversidade no campo da Organização do Conhecimento. Parte-se do entendimento de que a ciência está profundamente inserida em contextos sociais, culturais, econômicos e políticos que moldam suas práticas, linguagens e critérios de legitimação. Nesse cenário, a forma como o conhecimento é produzido, disseminado e reconhecido revela assimetrias históricas que favorecem determinados saberes, sujeitos e abordagens em detrimento de outros, invisibilizados por estruturas hierárquicas consolidadas. A emergência do pole dance como objeto de estudo acadêmico é utilizada como lente analítica para problematizar os mecanismos simbólicos, informacionais e institucionais que definem o que é reconhecido como conhecimento válido, publicado e legitimado. O problema de pesquisa está centrado na forma como os fluxos da comunicação científica moldam a inclusão ou marginalização de saberes considerados não hegemônicos, revelando disputas entre tradição e inovação no campo científico. Assim, o objetivo é compreender como a estruturação da comunicação acadêmica contribui, ou não, para a abertura a temas periféricos, considerados marginalizados ou alternativos, tendo como exemplo o processo de consolidação do pole dance como área emergente de interesse científico. A investigação propõe, ainda, refletir sobre o papel das tecnologias digitais nesse contexto e sobre os potenciais de transformação que elas oferecem ao sistema tradicional de comunicação científica. A pesquisa adota uma abordagem qualitativa, com base em análise documental e bibliográfica, mobilizando modelos clássicos e contemporâneos da comunicação científica, como os de Garvey e Griffith (1972), Hurd (1996, 2000), Mueller (2000), Correia (2006), Costa (2000), Melo (2014), Pinto e Costa (2018), entre outros. A análise é fundamentada nos conceitos de campo científico e capital simbólico de Pierre Bourdieu, bem como em autores que investigam os fluxos, sistemas e estruturas da ciência, como Meadows (1999), Weitzel (2006), Barreto (1998) e Larivière (2020). Os resultados apontam que os fluxos da comunicação científica vêm sendo impactados de forma significativa pelas tecnologias digitais, que promovem uma descentralização dos canais tradicionais de circulação do conhecimento e ampliam as vozes e temáticas que conseguem acessar, ainda que de forma parcial, o campo científico. A disseminação da informação científica, cada vez mais contínua, digitalizada e em tempo real, tem possibilitado maior visibilidade para temas emergentes como o pole dance, que antes enfrentavam enormes barreiras de legitimidade. Embora historicamente associado a estigmas e preconceitos relacionados ao entretenimento adulto e à sexualização do corpo feminino, o pole dance vem sendo ressignificado como objeto de pesquisa interdisciplinar, abordado por áreas como Educação, Nutrição, Arquitetura, Psicologia, Antropologia, Sociologia e Ciência da Informação. Apesar da ausência de periódicos especializados e da carência de associações científicas próprias voltadas exclusivamente ao tema, observa-se um processo crescente de formalização por meio de eventos acadêmicos, linhas de pesquisa, dissertações e teses defendidas, bem como produção científica contínua em diferentes níveis. A discussão evidencia que, embora haja transformações significativas nos modelos de comunicação científica — como o surgimento de e-journals, servidores de preprints, fluxos contínuos de publicação, redes sociais acadêmicas e iniciativas de ciência aberta —, ainda persistem barreiras estruturais à inclusão epistêmica. A emergência do pole dance como objeto acadêmico desafia essas estruturas cristalizadas e oferece uma oportunidade concreta para repensar os critérios de validação científica, os modos de produção do conhecimento e a própria noção de ciência. O caso analisado revela não apenas tensões entre tradição e inovação, mas também entre práticas formais e informais, entre exclusão histórica e possibilidades emergentes de reconhecimento institucional e simbólico. Conclui-se que pensar a comunicação científica sob o prisma da inclusão e da diversidade na Organização do Conhecimento exige não apenas a reconfiguração dos modelos de circulação da informação, mas também uma revisão crítica dos critérios simbólicos que definem o que é ciência, quem pode produzi-la, em quais espaços e sobre quais temas. A análise dos fluxos informacionais e do caso do pole dance demonstra que a Ciência da Informação, ao refletir criticamente sobre seus próprios sistemas e dispositivos, pode exercer papel estratégico na promoção de uma ciência mais plural, democrática e representativa da diversidade social, cultural e epistemológica da contemporaneidade. Reivindicar esse espaço de pluralidade não é apenas uma demanda de grupos marginalizados, mas uma urgência da própria ciência diante dos desafios do século XXI.