Última alteração: 2025-06-17
Resumo
O advento da Web 2.0 transformou profundamente as dinâmicas de produção, circulação e apropriação da informação, possibilitando que usuários não especializados criem, editem e disseminem conteúdo digital de maneira contínua e colaborativa. Nesse cenário, o conceito de Conteúdo Gerado pelo Usuário (User Generated Content), conforme delineado por Kaplan e Haenlein (2010), emerge como categoria central para compreender a lógica comunicacional da era digital. As redes sociais digitais, como parte desse ecossistema, consolidam-se como arenas de expressão, articulação e mobilização coletiva, notadamente no contexto de causas político-sociais.
Castells (2013) introduz o conceito de “autocomunicação de massas” para descrever a possibilidade de indivíduos se expressarem diretamente, sem mediação institucional, por meio dessas plataformas. Essa transformação coloca em xeque os modelos clássicos de organização do conhecimento, pois a velocidade e o volume de conteúdos gerados diariamente exigem novas formas de categorização e recuperação da informação. É nesse contexto que se insere o presente estudo, que tem como objetivo refletir sobre o papel das hashtags como instrumentos de organização do conhecimento nas mobilizações político-sociais realizadas em ambientes digitais.
São três os objetivos específicos: (i) conceituar a hashtag sob a ótica da organização do conhecimento; (ii) examinar suas funções informacionais e sociais nas plataformas digitais; e (iii) relacionar seu uso com processos contemporâneos de mobilização sociopolítica.
A pesquisa é de caráter exploratório, fundamentada em revisão de literatura especializada nas áreas de Ciência da Informação, Comunicação e Estudos de Mídia. Foram consultadas bases como EBSCO, Scopus e Web of Science, priorizando estudos que analisam casos concretos de mobilizações sociais e suas formas de organização simbólica e informacional.
Representada pelo símbolo “#”, a hashtag é compreendida como artefato discursivo e técnico de natureza híbrida, cuja principal função é indexar e recuperar conteúdos de maneira dinâmica, descentralizada e horizontalizada (Brock, 2012; Bernard, 2015). Diferentemente das palavras-chave atribuídas por especialistas em contextos institucionais, as hashtags configuram um sistema emergente de organização do conhecimento, ou seja, na produção de "tagueamento" por usuários comuns. Bernard (2015) identifica três características centrais nesse processo: (i) a ausência de uma autoridade central; (ii) a fluidez na relação entre marcador e objeto; e (iii) a imbricação entre texto e metadado.
No campo das mobilizações sociopolíticas, a hashtag transcende sua função técnica de categorização e assume papéis discursivos e simbólicos relevantes. Ela estrutura narrativas coletivas, atua como mecanismo de framing (enquadramento) e se torna dispositivo de arquivamento simbólico (Bonilla & Rosa, 2015). Casos como #BlackLivesMatter (Anderson & Barthel, 2020), #MeToo (Afnan, 2019), #ILookLikeAnEngineer (Malik & Johri, 2025), #Elenão (Siqueira, 2020) e os protestos no Parque Gezi, na Turquia (Balaban-Salı & Erben, 2016), ilustram como as hashtags funcionam simultaneamente como agregadores de conteúdo e vetores de mobilização afetiva, comunitária e política. Essas manifestações demonstram o poder das hashtags na criação de comunidades interpretativas e na ampliação de espaços de visibilidade para vozes historicamente silenciadas.
Embora estudos críticos apontem limitações quanto à precisão e à eficiência das folksonomias no que se refere à recuperação da informação (Munk & Mork, 2007; Park, 2019), outras abordagens evidenciam seu potencial como instrumento político e arquivístico. O conceito de “femitags”, por exemplo, sugere que certas hashtags criadas em contextos feministas cumprem funções semântico-políticas, operando como índices de denúncias e como suporte à construção de redes de solidariedade e resistência (Rovira-Sancho & Morales-I-Gras, 2022). Salahuddin (2022) complementa essa perspectiva ao tratar as hashtags como operadores epistemológicos que tensionam os regimes clássicos de organização do conhecimento.
Conclui-se que as hashtags, embora alheias aos princípios normativos da Biblioteconomia e da Ciência da Informação, representam uma modalidade significativa de organização da informação na contemporaneidade. Sua análise no contexto das mobilizações político-sociais permite ampliar os horizontes teóricos da área, incorporando abordagens interdisciplinares que dialogam com os estudos culturais, a sociologia digital e as epistemologias críticas. Dessa forma, propõe-se reconhecer nas práticas de tagueamento não apenas um fenômeno técnico, mas também uma forma legítima de produção e circulação de saberes.