Tamanho Fonte:
A Dimensão ética do pensamento lógico e categorial em Sistemas de Organização do Conhecimento: relatos de pesquisa sobre a microanálise da terminologia sobre gênero na Agenda 2030
Última alteração: 2025-06-17
Resumo
(Objetivos) Em 2015, a Organização das Nações Unidas encampou a chamada Agenda 2030, contendo 17 Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável (ODS), um compromisso assumido pelos países signatários para redução das desigualdades e proteção ao meio ambiente. Dez anos à frente, um projeto de pesquisa vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e da Inovação do Brasil, desenvolvido entre os anos de 2022 e 2024, com o objetivo de mapear a comunicação científica orientada à inovação informacional no contexto dos ODS, realizou a análise da produção discursiva registrada nas metas da Agenda 2030, ou seja, a redação (termo, conceito e significado) do texto dos 17 ODS. Com fins ao aprimoramento do controle terminológico para qualificar revisões sistemáticas de literatura, dedicou-se à análise de assunto do ODS número 5, segmentado em Igualdade de Gênero. Apoiado na prática bibliotecária, realizou-se um primeiro tratamento terminológico de identificação, extração, ordenamento hierárquico e relacional, isolamento dos termos via método de indexação, especificamente o processo de Análise de Assunto. Os resultados obtidos foram apresentados em eventos científicos ao longo do ano de 2024. Para esta etapa, propõe-se a continuidade do estudo, aplicado especificamente ao ODS número 5, à luz da representação da informação para construção de linguagens documentárias. O objetivo, portanto, da proposta, é observar se os termos e suas respectivas relações anteriormente identificadas são coerentes com a representação justa das comunidades pertencentes ao grupo temático gênero, e se apontam para o estabelecimento de relações lógicas e categoriais aderentes aos princípios da democracia documentária, conceito proposto por Saldanha (2020), norteador do macroprojeto. Trata-se, assim, da dimensão ética de um dado pensar lógico e categorial, presente no núcleo do práxis informacional da Organização do Conhecimento. Para esta etapa, se propõe à reflexão teórica acerca dos desafios éticos de informacionais de unificação de uma agenda (política, discursiva e terminológica) abrangendo 193 Estados-membros, cujo entendimento sobre o tema ‘gênero’ não é uníssono. O corpus de análise tem por base o texto em língua portuguesa, oficializado pelo Estado brasileiro. (Métodos) O estudo é caracterizado como uma análise de domínio, na forma de uma microanálise aplicada ao tema gênero, com recorte em análise da informação para fins documentários. Da perspectiva teórica, mobiliza teorias da classificação como a Teoria do Conceito, de Ingetraut Dahlberg, a desclassificação, de Antonio García Gutiérrez, e os princípios de indexação orientados por F. W. Lancaster, bem como a noção de ética intercultural, de Rafael Capurro. Nesta etapa de análise, ainda em curso, privilegiou-se a identificação de termos quanto à presença e ausência em comparação a garantias literárias especializadas em estudos de gênero e fontes gerais de informação. Como recurso operacional de mapeamento da literatura aderente aos ODS, adotou-se o método de revisão sistemática de literatura, a partir da proposta denominada Revisão Sistemática de Literatura baseada em Pesquisa Bibliográfica Estruturada (RSL-PBE). (Principais resultados) Por extração, o processo de leitura exploratória identificou 32 termos. Após a primeira etapa de tratamento conceitual, o conjunto foi expandido para um total de 64 termos organizados em três relações, sendo 5 (cinco) Termos Genéricos (TG) sob os quais os demais termos foram classificados e agrupados como Termos Específicos (TE), total de 17, ou Termos Relacionados (TR), total de 42. Tais termos subsidiaram a elaboração de 26 expressões de buscas que foram aplicadas em um conjunto de 32 (trinta e duas) revistas na área de Ciência da Informação. Registram-se no teste de aderência 772 registros nas revistas. Os resultados foram provenientes da aplicação adaptada do Protocolo de Revisão previsto no método de revisão sistemática adotado: RSL-PBE (versão 2). (Conclusões) A análise aponta para a presença de termos, conceitos e assuntos aderentes ao debate contemporâneo sobre igualdade de gênero, tais como empoderamento, o reconhecimento do trabalho doméstico não remunerado, garantia a serviços e recursos naturais, econômicos, educacionais, políticos e tecnológicos, violência contra mulheres e meninas na esfera pública e privada, exploração sexual, incluindo casamentos forçados e prematuros e direitos reprodutivos. As relações lógicas e hierárquicas selecionadas a partir da análise de assunto demonstraram maior variedade para políticas de acesso e garantias de direito no contexto da igualdade de gênero e menos variedade nas classes sobre discriminação de gênero e violência de gênero. Observou-se como dilema ético mais sensível o próprio conceito de gênero, uma vez que no texto mantém-se, exclusivamente, os significantes mulher e menina. Infere-se como um dos maiores desafios para o contexto informacional da representação e da indexação das produção textual e discursiva da ONU, o tratamento das diferentes acepções sobre o conceito de gênero, acompanhado de suas capilaridades e interseccionalidades, considerando as diferentes premissas, interpretações e dispositivos legais dos países-membros. Com foco no Estado brasileiro e seus dispositivos legais contra o preconceito de gênero (termo ausente do texto da ONU, assim como sexismo e misoginia), da perspectiva da justiça informacional, da democracia documentária e da ética intercultural, o texto, embora necessário, reforça o binarismo e não contempla outras populações vinculadas ao grupo temático gênero, reconhecidas pelo Brasil.